Vendedor ou psicopata?
Imagine que você está em um shopping passeando e procurando um tênis novo. De repente, avista em uma vitrine um modelo que pareceu interessante. Você para na frente da vitrine, observa o tênis, vê o preço e continua andando, pois ainda quer olhar em outros lugares antes de tomar a decisão. O vendedor, parado na entrada da loja, te observa.
Depois de caminhar um pouco, se senta em um quiosque para tomar um sorvete e descansar. De repente, o vendedor daquela loja aparece ao lado da sua mesa com o tênis na mão, dizendo: “Amigo, eu percebi que você se interessou por este tênis, que tal comprá-lo agora?”
“Não, obrigado”- você responde educadamente e com estranheza. Logo de terminar o sorvete, é hora de continuar buscando, mas depois de alguns metros, ao passar pelo corredor do banheiro, o mesmo vendedor salta na sua frente com o tênis na mão e diz, sorridente: “E agora amigo? Não quer conhecer nossas ofertas?”.
Em um susto, mas ainda educadamente, você responde: “Já disse que não, obrigado!” e logo segue seu caminho, um pouco perturbado.
Que tal um bom livro?
Ao avistar uma livraria, você resolve entrar para ver se há algo interessante, e um livro chama sua atenção. Você pega o livro, vê o preço e folheia um pouco, avaliando se irá comprá-lo naquele momento. Um vendedor se aproxima amavelmente e pergunta se precisa de algo. “Por enquanto não, obrigado.” – você sorri.
Ao seu lado, um indivíduo que também folheava um livro te dirige a palavra, quase sussurrando: “Não se esqueça do seu tênis, está com um preço incrível!”. Com espanto, você fixa seus olhos no rosto dele e percebe que era o vendedor da loja do tênis.
“Velho, sai fora, não vou comprar essa p***a de tênis, e para de me seguir ou eu chamo a polícia!!” – você grita, furioso. Ele se afasta, assustado, enquanto te assiste ir embora rapidamente da livraria.
Por alguns metros, e olhando para trás a cada certo tempo, você anda sem se concentrar em nenhuma loja, já meio paranoico com o vendedor da loja do tênis. Finalmente, o cara parece ter desaparecido. Um pouco mais calmo, você começa a olhar novamente as vitrines, até se distrair de novo.
Uma pausa para ir ao banheiro, e já na pia lavando as mãos, você reconhece uma cara familiar no espelho, atrás de você: “Nossa livraria está com uma promoção incrível hoje, e se você levar este livro que gostou, vai ganhar um estojo exclusivo para seus óculos de leitura!” – ele diz, com convicção.
Já com a compostura reestabelecida, você responde educadamente: “Obrigado, se eu decidir comprar voltarei até a loja.” Logo de secar as mãos, acelera os passos e sai do banheiro tentando entender qual é o problema com aqueles caras.
Tentando distrair um pouco…
No caminho, avista outro tênis que chama sua atenção, e se dirige à vitrine para olhar de perto. O preço parece bom, o modelo te agrada bastante. “Talvez deveria investir em conhecimento também, é importante. Sabia que este livro que você está interessado pode ser parcelado em até 10x sem juros?”. Com os olhos arregalados, você olha para o sujeito que está parado ao seu lado na vitrine: é o vendedor da loja de livros de novo.
Sem responder, você empurra o cara e corre desesperadamente para o quiosque do estacionamento, pensando: “Só tem louco nesse lugar!” Quase tremendo de nervoso, você recebe o ticket e recibo de pagamento e se dirige rapidamente ao estacionamento para buscar seu carro.
Descendo na escada rolante, uma voz atrás de você insiste: “Se você levar este livro hoje, pode ganhar desconto de 50% em outro livro da mesma editora. Mas tem que ser hoje! fechamos?”
Suando, você se nega a olhar para trás. Parece um sonho de mal gosto, não é possível. Daqueles que a gente tem quando come demais antes de dormir. Já vai passar. Já vai passar. Já vai…
A escada chega ao fim, e você acelera o passo para sair logo daquele lugar. Que dia estranho! Depois de alguns metros, avista seu carro, tira a chave do bolso e desativa o alarme. No vidro do carro, tem um papel dobrado preso ao limpador do para-brisa. Ao abrir o papel, você lê, incrédulo, a mensagem: “Amigo, ao comprar aquele tênis ainda hoje, você leva de brinde um par de meias esportivas! Vá à nossa loja e procure por Diego. Não perca esta incrível oportunidade!”
Em um surto histérico, você rasga aquele papel, joga no chão e pisa encima, com fúria. Abre a porta do carro e entra, batendo com força. Ao sair, avista uma silhueta ao lado do carro, mas não tem coragem de olhar diretamente. Em uma rápida olhadinha de “rabo-de-olho”, percebe que um sujeito parado parecia observar seu carro, e segurava algo nas mãos – talvez um livro? Não interessa: você sai dali o mais rápido possível.
Invasão de privacidade
Insólito, né? Essa história me passa pela cabeça cada vez que entro em uma página web para ver alguma coisa e o anúncio daquele produto me segue durante x tempo nas minhas redes socias, outras páginas web, Youtube.
Se comentamos algo com um amigo ou parente perto do celular, do tipo: “gostaria de fazer uma viagem para a Grécia”, e nos dias seguintes começamos a ver no Instagram publicidade de agências de viagem oferecendo pacotes “incríveis” para a Grécia, devemos fazer o que? Isto não é uma invasão de privacidade? Total.
É uma sensação estranha de estar sendo vigiados e perseguidos, e não entendo por que permitimos esse tipo de assédio digital, quando na vida real isso poderia dar polícia.

Vídeos com publicidade
Quando estamos escutando um vídeo no Youtube sobre um assunto interessante pra nós, e de repente nosso vídeo é interrompido por um vídeo de publicidade, quem fica feliz? Muita – MUITA – gente deve ficar irritada. Talvez seja uma excelente forma de espantar boa parte da audiência. E quando estou lavando louça e entra um vídeo de publicidade que não posso pular no momento – pois estou com as mãos molhadas – e o anunciante simplesmente enfiou um vídeo de 7 minutos no meio daquilo que eu queria escutar? Velho… deixa eu ver o nome desta empresa. Pra não comprar NUNCA dela.
Ok, talvez eu esteja exagerando. Mas quando você está conversando com alguém um assunto interessante, ninguém vai colocar a cara no meio de vocês dois, interrompendo a conversa e dizendo algo como: “Você já parou pra pensar que o seu sabonete pode estar prejudicando a sua pele? O novo sabonete Sujabem é excelente para manter a saúde e a beleza da sua pele, sabia?… BLABLABLA.”
Sabe por que ninguém faria isso? Por que é GROSSERIA. E muita gente deve se sentir assim. E muitas vendas são perdidas assim. Sabemos que esta é a fonte de renda de muitos criadores de conteúdo, e por respeito e carinho a eles, toleramos. No entanto, definitivamente não acho que sejam as melhores formas de conquistar os clientes.
Conclusão
A solução? Não sei ao certo, pois ainda estamos engatinhando no marketing digital. Temos que amadurecer, polir nossas técnicas. A venda deve ser algo mais amigável, agradável, tanto para o vendedor como para o cliente, respeitar a privacidade e os limites do mesmo.
Se no presencial as vendas ainda são bastante agressivas, com vendedores utilizando verdadeiras técnicas de manipulação para quase “coagir” uma pessoa a comprar, ainda temos um largo caminho a percorrer. Mas a gente chega lá.